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19/09/04
Agricultura ecológica e a saúde humana
Por Fernando Bignard *
Há cerca de 50 anos surgiu nos consultórios médicos
um paciente atípico: ele não trazia queixas específicas
de um órgão em especial, como uma dor de cabeça ou no
estômago ou uma febre. Queixava-se apenas de não estar
bem; de não estar motivado para o trabalho; dizia que
dormia mal a noite apesar de se sentir sonolento durante
o dia; sem ânimo para o trabalho e até mesmo para o
lazer e para a vida relacional. Durante décadas esse
paciente foi medicado com tranquilizantes e ansiolíticos
pois supunha-se que se tratava de um desequilíbrio psíquico.
A situação elevou em dezenas de vezes o consumo mundial
de benzodiazepínicos (ansiolíticos como o Valium e o
Diempax).
Há pouco mais de uma década uma nova especialidade
médica, a medicina ortomolecular, começou a estudar
o metabolismo humano como um todo e percebeu que estes
pacientes estavam na verdade micro desnutridos e intoxicados,
isto é, apresentavam deficiência de vitaminas e sais
minerais e os metais pesados e outras substâncias estavam
nocivamente em excesso em seu organismo. Esta medicina
desenvolveu uma forma de retirar quimicamente estas
substâncias nocivas do sangue e repor aquelas faltantes
através da suplementação vitamínico-mineral, procurando
normalizar o metabolismo.
Mas, se transcendermos a medicina do indivíduo e olharmos
ecologicamente em busca da origem dessa situação encontraremos
transformações profundas nas formas de produção agropecuária
que se disseminaram pelo mundo nos anos 50. Nesse período
pós-guerra, a tecnologia bélica perdeu sua finalidade,
mas encontrou um escoamento para sua produção transformando
tanques de guerra em tratores! A prática de arar o solo
era justificável e até ecológica nas áreas de clima
temperado, pois trazia para a superfície do solo a camada
vital que ficou latente a 40 centímetros de profundidade
durante o inverno gelado. Esse método, aplicado numa
região fria, auxilia a natureza expondo ao calor do
suave sol de primavera a camada viva do solo possibilitando
que a prática agrícola se inicie mais cedo.
Porém, quando são derrubadas as matas das zonas tropicais
com os potentes tratores de esteira ligados por pesadas
e grossas correntes, a camada viva superficial do solo
é aquecida a 60ºC ou até 80ºC pelo tórrido sol tropical,
mata-se a flora e a a fauna subterrânea pelo calor e
pela destruição provocada pelo arado mecânico. Nesse
solo morto a matéria orgânica não pode ser reciclada.
A única alternativa é alimentar as plantas com adubo
químico, pois elas só conseguem absorver a matéria orgânica
que foi mineralizada pelo organismos vivos do solo.
A lavoura alimentada com NPK (nitrogênio, fósforo e
potássio) é microdesnutrida, apesar de aparentar saúde.
A Natureza porém não se engana e, seguindo suas leis
de equilíbrio e homeostase envia seus agentes para eliminar
as plantas de seiva doce (sintoma decorrente do uso
de NPK) como verificou Chaboussou em 1.981. estes organismos
são chamados de pragas e "tratados" com defensivos agrícolas,
isto é, venenos poderosíssimos que adoecem e matam os
agricultores. Grando, em 1.998, constatou que somente
no Estado de Santa Catarina são registrados np Centro
de Informação Toxicológica da Universidade Federal de
Santa Catarina 30 a 40 casos de intoxicação por agrotóxicos
ao mês, chegando a 500 casos por ano, dos quais 15 em
média vão a óbito.
Bortoletto em 1.993 afirma que este índice é subestimado
quando pensamos no Brasil todo. Os agricultores apresentam
sintomas vagos que por vezes passam desapercebidos ecoluindo
até dores de cabeça e estômago, fraqueza, sonolência;
chegando a danos neurológicos irreversíveis, neoplasias
e malformações congênitas além de abortos. Essas manifestações
variam segundo a susceptibilidade do indivíduo, podendo
ocorrer em pessoas que não sejam trabalhadores rurais,
mas sim consumidores inconscientes que estão se intoxicando
cronicamente! Além de danificar de forma irreversível
o meio ambiente, a agricultura convencional está produzindo
alimentos inadequados, microdesnutridos e intoxicados
estendendo a mesma condição aos consumidores.
A Revolução Verde da década de 50, baseada em um olhar
neomalthusiano, subordinou a agricultura ao capital
industrial e ignorou métodos tradicionaius de manejo
ecológico do solo como o plantio direto (utilizado tradicionalmente
pelos índios), adubação verde com cobertura permanente
do solo, etc (Miller 2.002) A saúde e principalmente
o bem-estar e a qualidade de vida decorrem não só da
qualidade dos alimentos consumidos por uma população
mas também do seu estilo de vida. A História mostra
que os povos mais longevos e saudáveis ingeriam alimentos
naturais produzidos no local que habitavam sem conservantes
através de uma verdadeira agricultura, isto é, de uma
cultura humana alicersada no solo vivo reverenciado
por vários rituais, integrados por uma convivência consciente
e saudável com a Natureza. São exemplo desses modelos
os Mayas, os habitantes da Nova guiné e também do Vale
dos Hunza e Vilcabamba no Equador, bem como as populações
que habitam hoje a Serra Gaúcha do Brasil. A longevidade
dos colonos da região de Taquari (RS) é uma das maiores
do país. Eles tem uma cultura alimentar mediterrânea
(consagrada pela literatura médica mundial como preventiva
de doenças crônicas) mas também tem uma relação direta
com a produção agropecuária que os sustenta e tem uma
forte estrutura familiar que gera confiança (Azevedo,
2.003).
Acredita-se que a natureza da espécie humana seja matriarcal.
Recentes estudos arqueológicos realizados na Europa
meridional sugerem que os primórdios da agricultura
tenham acontecido por volta de 7.000 a.C. Essas investigações
encontraram evidências de sociedades agrícolas de vida
confortável não fortificadas, de orientação matriarcal
e divindades femininas. Produziam cerâmicas elaboradas
ao invés de armas (Gimbutas, 1.974). A atitude matriarcal
é inclusiva, continente e holística, nela o ser humano
é parte indissociável da Natureza como numa cosmologia
taoísta. A sensibilidadee a intuição prevalecem sobre
o intelecto que se torna apenas um instrumento para
decifrar o produto da intuição planejando a ação decorrente.
O solo é um recipiente fecundo e vivo que aconchega
a semente reciclando a vida. Podemos reconhecer essa
atitude nos versos do índio norte-americano da tripo
Wanapum: "Devo pegar uma faca e rasgar o seio de minha
mãe? Então quando eu morrer ela não me tomará em seu
seio para repousar. Você (homem branco) me pede para
escavar o chão procurando pedra! Posso escavar sob sua
pele procurando seus ossos? Então, quando eu morrer,
não poderei entrar no seu corpo para renascer. Você
(homem branco) me pede para cortar a grama e fazer feno
e vendê-lo, e ficar rico como os homens brancos! Mas
como eu ousaria cortar os cabelos de minha mãe?" (Eliade,
1.959 pg.138)
Entre 4.000 e 3.500 a.C. Esse panorama paradisíaco
lastreado na acolhedora atitude feminina foi invadido
por culturas guerreiras ávidas de recursos. Surgia a
era do patriarcado, do poder temporal, da força bruta
subjugando a sutileza natural. A ascenção do poder masculino
culminou, no Ocidente, com a Inquisição que queimou
toda a cultura tradicional (matriarcal) em nome da Instituição
Religiosa dominada pelo homem. Os concílios de Latrão
(900 d.C.) e Trento (1.100 d.C.) decretaram a separação
entre corpo e alma. Inicialmente apenas o ser humano
masculino teve o privilégio de reter sua condição anímica!
Mulheres, crianças, animais, negros, índios, tronaram-se
"coisas" insensíveis que podiam ser comercializadas
livremente.
Também a Natureza passou a ser encarada como uma "coisa"
exclusivamente material que precisava ser explorada
e dominada. Percebe-se evidentemente essa ideologia
na desnecessária brutalidade com que passaram a ser
tratados os animais. Exemplo dessa condição é a forma
gentil com que os índio norte-americanos acolheram os
cavalos (trazidos pelos europeus) encantando-os com
sua sensibilidade, enquanto a equitação européia era
repleta de ferros torturantes que procuravam intimidar
e dominar "a besta". O homem, especialmente o europeu
medieval, passou a projetar sua negatividade na Natureza
ao seu redor desenvolvendo um medo insano dos animais
e meio ambiente. Defendia-se desse agressor ilusório
matando e maltratando os animais, ateando fogo as florestas,
estuprando as mulheres (temendo seus poderes enfeitiçantes!).
Essa condição materialista demundo foi instaurada pela
Inquisição. Galileu salvou sua vida abrindo mão de seu
olhar abrangente do Cosmo, porém muitos pereceram levando
consigo a sabedoria tradicional do Ocidente.
Durante séculos o materialismo exclusivo dominou as
ciências. Ao dividir o homem em corpo material e espírito,
a Igreja aprisionou o livre desenvolvimento humano condenando-o
ao desfrute meramente material da vida. Anteriormente
um artesão, um agricultor, exerciam seus ofícios com
a responsabilidade de serem felizes e alimentarem suas
almas. Porém a Igreja tomou para si o cuidado do espírito,
do comportamento. Somente os sacramentos podiam salvar
o espírito de uma vida que passou a terminar com a morte
(as culturas tradicionais entendiam que a existência
não teminava com a morte física). Recluso ao mundo material,
o ser humano ocidental passou a desfrutar alienadamente
tudo o que pudesse durante sua curta vida mundana, temendo
o pecado, temendo Deus, temendo a Natureza (que deveria
ser usufruída!).
Esse cárcere materialista possibilitou um incrível
desenvolvimento tecnológico e o descobrimento das leis
que regem a matéria. A ciência ficou restrita à dimensão
material até que Einsten equiparou a energia (imaterial)
à matéria, retomando para o mundo leigo a imaterialidade.
Também na Medicina, demorou muito para que a Psiquiatria
pudesse surgir e cuidar dos distúrbios de comportamento.
Estes eram abordados exclusivamente com o exorcismo
que pressupunha que o doente mental, possuído pelo demônio,
deveria ser maltratado até que satã dele se desinteressasse!
Essa cultura ficou tão arraigada que impregna até hoje
os hospitais psiquiátricos. A integração da psique ao
soma ainda engatinha na Medicina convencional mas vem
se fortalecendo nas abordagens multiproffssionais e
interdisciplinares.
No jornal do milênio passado essa tendência de resgatar
a unicidade, o sentimento holístico se fortaleceu com
a ecologia, procurando entender os fenômenos de forma
integrada. Mesmo a ciência convencional continuou seu
caminho na direção da Organicidade: o contemporâneo
físico quântico hindú Amit Goswami, professor da Universidade
de Oregon, EUA, começa a postular a consciência como
a raiz formal de todos os fenômenos. Por outro lado
o biólogo Rupert Sheldrake da Universidade de Cambridge,
Inglaterra, sugere a existência de campos morfogenéticos
subjacentes aos processos biológicos, contribuindo para
o entendimento de fenômenos de comunicação imaterial
entre os seres. Já no campo da farmacologia o médico
Jackes Beneviste (1.988) consegue estimular células
(basófilos) com uma preparação não molecular, isto é,
uma água que continha apenas informação imaterial. Com
isso se abriram perspectivas para o entendimento da
homeopatia que ficou por dois séculos alienada da ciência
convencional por medicar com preparações imateriais.
Na agricultura, são revistos princípios metodológicos
e principalmente a integridade do bioma subterrâneo
na qualidade do alimento produzido. A tecnologia agrícola
que ara e mata o solo em sua qualidade e capacidade
criativa como demonstra o documento publicado pelo Senado
Americano em 1.992 revelando que o solo agrícola americano
apresentava um déficit de 85% de minerais essenciais
contra uma média mundial de 75%! Apesar de ser alarmante
essa condição atual já em 1.936 o documento 264 do mesmo
senado Americano já afirmava que o solo das fazendas
americanas estava deficiente acarretando deficiência
numa vasta gama de minerais em 99% da população americana!
(Dados de 70 anos atrás!) Essa condição empobrecida
dos solos causa deficiências nas plantas neles cultivadas
que gera a demanda de agrotóxicos especialmente herbicidas
cujo baixo peso molecular favorece a disseminação e
difusão num raio de 30Km! Em 125 pacientes avaliados
por T. Higashi em 2.001 na cidade de São Paulo, 124
apresentavam algum grau de contaminação por agrotóxico,
e São Paulo não é uma cidade rural!
Os dados disponíveis no Centro de Assistência Toxicológica
da UNESP - Botucatu revelam que 81% dos 1.591 pacientes
atendidos pelo serviço estavam intoxicados por agrotóxicos.
Todos esses pacientes apresentavam alguma sintomatologia
que provocou o encaminhamento para o serviço que é coordenado
pelo Dr.Antônio Francisco Godinho (2.002), cuja observação
sistemática de tal população sugere que a intoxicação
crônica e cumulativa leva a alterações comportamentais,
além das físicas; revela também que estudos lá realizados
demonstraram que a intoxicação materna se transmite
pelo leite aos filhos acarretando neuropatias e distúrbios
comportamentais precoces. Esta situação foi bem estudada
em bovinos e caprinos, mas observações comportamentais
e laboratoriais em humanos reforçam a ocorrência do
mesmo fenômeno na nossa espécie.
Outro aspecto importante a ser considerado é a omposição
do alimento cultivado em solo vivo. A integridade e
biodiversidade da flora e da fauna subterrânea dispõe
para as plantas uma variedade de nutrientes acarretando
melhor qualidade nutricional dos produtos. Bob Smith
publicou em 1.993 no Journal of Applied Nutrition (pg.35
a 45) extenso estudo sobre a composição de vários produtos
orgânicos comparados aos equivalentes obtidos pela agricultura
convencional. Es relação ao trigo, observou-se que o
orgânico tem 1.300% mais selênio, 540% mais manganês,
430% mais magnésio; por outro lado tem 65% menos chumbo
e 40% menos mercúrio. Ainda em relação ao trigo a Price
Pottenger Nutrition Foundation divulgou que o trigo
de 1.900 continha 90% de proteína enquanto que o de
1.990 tinha apenas 9% (muitas vezes a seleção de cultivares
resistentes às pragas acaba acarretando perdas na qualidade
nutricional do produto).
Em relação ao milho Smith constatou que o teor de cálcio
era 1.800% maior no orgânico, assim como 1.600% mais
rico em manganês, 490% em molibidênio, 300% mais selênio;
por outro lado tinha 80% menos alumínio e 80% menos
mercúrio. Essa tendência se mantém em outros trabalhos
como demosntra a metanálise de trabalhos desse tipo
realizada por Williams em 2.002. No geral se observa
uma marcada tendência na redução de nitratos assim como
um incremento no teor de vitamina C nos alimentos orgânicos;
também se observa uma maior disponibilidade protéica.
Em 2.001 a nutricionista inglesa Shane Heaton revisou
400 rabalhos científicos num projeto da "Soil Association"
(instituição de pesquisa britânica) concluindo que em
síntese a alimentação orgânica tem efeitos positivos
sobre a saúde humana; observou ainda que os teores deminerais
dos produtos da agricultura convencional caíram vertiginosamente
na última metade do século e reafirma a influência dos
métodos de cultivo no teor de vitaminas e minerais e
associa esse fato ao crescimento da indústria de suplementos
alimentares!
O solo equilibrado produz alimentos balanceados, MIYAZAWA
e col, do Instituto Agronômico do Paraná, em 2.001 comparou
o teor de Nitrato de alfaces produzidas organicamente,
convencionalmente e hidroponicamente. Os maiores indícios
foram encontrados nas hidropônicas e os menores nas
orgânicas. O nitrogênio é um elemento estrutural na
formação das plantas e é disponibilizado para sua nutrição
após passar pelo processo de mineralização realizado
principalmente por bactérias do solo. No solo desvitalizado
da agricultura convencional este elemento é oferecido
às plantas já na forma de sal do adubo químico. Na hidroponia
não existe solo apenas uma solução salina que banha
regularmente a raiz das plantas! Nas duas modalidades
onde a Natureza perde seu papel homeostásico a planta
se vê afogada em nitrato não tendo outra alternativa
a não ser absorvê-lo em excesso.
Em 1.994 o Instituto Pasteur de Lile, na França, publicou
uma revisão de vários trabalhos sobre o tema observando
reduções de 69 a 93% nos teores de nitrato de legumes
e verduras cultivadas organicamente. Trabalhos publicados
na Áustria, Holanda, Suíça e Alemanha confirmam esse
achado demonstrando que o equilíbrio ambiental é um
processo continente, isto é, uma vez equilubrado promove
equilíbrio em todos os seus aspectos e participantes.
É por essa razão que, até mesmo os aspectos sociais
precisam ser considerados na produção orgânica. Um solo
equilibrado produz alimentos equilibrados que equilibram
os animais e homens que dele se nutrem. Esse homem equilibrado
satisfeito com seu salário e condições de moradia devolve
satisfação e equilíbrio ao meio ambiente. A organicidade
é o princípio do equilíbrio e homeostase entre os fatores
de um sistema. É um processo baseado na retroalimentação
de informações que circulam adequadamente por todo o
sistema ou organismo.
A agricultura orgânica almeja o equilíbrio e desenvolvimento
sustentável do meio ambiente, fauna, flora e ser humano
onde todos possam interagir com respeito e discriminação.
A prática agrícola ecológica retoma a UNICIDADE tradicional
dos primórdios da agri-cultura da espécie humana em
sua fasemariarcal onde reinava a paz, o acolhimento
e a harmonia, onde os valores naturais eram reverenciados
como Deusas de amor incondicional. A retomada dessa
prática agrícola pode se transformar numa poderosa ferramenta
de resgate da Paz Mundial. Se, há cerca de mil anos,
o Ocidente queimou sua unicidade nas fogueiras da Inquisição,
hoje a Ciência contemporânea resgata esses mesmos valores
através da observação empírica e sistemática dos fenômenos.
Estamos hoje, resgatando paradigmas tradicionais. Temos
a impressão que estamos vivendo sob a inspiração de
um campo morfogenético que favorece a retomada da unicidade.
No campo da Nutrição também percebemos esse movimento.
Dra.Walburg Maric-Dehler, primeira presidente da Associação
Alemã de Acumpuntura, no prefácio de "Os 5 Elementos
na Alimentação Equilibrada" (2.003) escreve: "As escolas
de alimentação ocidentais são baseadas num modelo mecânico
do homem. A pergunta central: 'de que substâncias o
homem precisa para viver?', segue-se a recomendação
de alimentos que contenham tais substâncias. Porém,
mesmo depois de seguirem por muito tempo essas prescrições
muitas pessoas não se sentem bem nem saudáveis. A visão
energética da medicina tradicional complementa a concepção
de vida físico-anatômica." Nessa abordagem os alimentos
são vistos como ativadores e moduladores das funções
vitais. A alimentação e a respiração são as principais
fontes de energia do homem com os quais ele complementa
suas energias vitais inatas.
A nutrição é o resultado da interação entre o alimento
e organismo. Isto é, o mesmo alimento pode produzir
efeitos distintos em pessoas diferentes em virtude de
sua condição e predisposição. Portanto a lei da Organicidade
também se aplica à orientação alimentar e a prescrição
nutricional. A qualidade do alimento interage dinamicamente
com a condição daquele que o consome. O alimento só
consegue exercer totalmete seu efeito quando o organismo
está em condições de assimilá-lo, separá-lo no que é
aproveitável e dispensável, transformá-lo e transportá-lo
aos tecidos que dele necessitam. Portanto a escolha
de um alimento relaciona-se a constituição pessoal e
as forças e fraquezas circunstanciais. Portanto necessita
ser individualizada.
Um aspecto fundamental no processo da alimentação é
a sensibilidade. O ser humano, por pentecer a uma espécie
caracteristicamente social, paga qualquer preço para
se sentir parte de seu grupo e aceito por ele. Desde
a infância se depara com expectativas alheias (inicialmente
dos pais e depois da sociedadecomo um todo). Passa a
acreditar que precisa atender a essas expectativas para
ser aceito até mesmo pelos seus pais. Nesse processo
acaba abrindo mão do que sente para tornar-se aquilo
que se espera que ele seja; passa a seguir o projeto
idealizado que deve realizar para ser aceito. Nesse
processo o ser humano perde sua sensibilidade, sua capacidade
de sentir o que de fato necessita. Distancia-se de sua
função instintiva que lhe permite perceber do que necessita.
É essa função que possibilita a um cão procurar a erva
que limpará seu estômago. A educação alienante consome
nossa capacidade de sentir o que precisamos comer e
de escolher a qualidade dos alimentos que de fato nos
nutrirão. O solo vivo é uma inigualável usina de transformação
que, aliada aos vegetais, transforma informações cósmicas
através da luz, calor, ar e água em alimentos.
Segundo os ensinamentos tradicionais aquilo que comemos
deve ter alma, vitalidade para nutrir nossa alma e nossa
vida. Talvez uma das causas da obesidade, problema cada
vez mais preocupante atualmente, possa ser a baixa vitalidade
dos alimentos. Nossa alma ou nossa parte imaterial se
alimenta da parte imaterial e da vitalidade dos alimentos.
Quando nos alimnetamos de algo "vazio" precisamos comer
muito para sentir saciedade. Enretanto quando ingerimos
uma comida feita com ingredientes naturalmente produzidos,
recém colhidos e preparados com cuidado e carinho sentimos
um preenchimento do nosso ser e talvez até alegria!
Podemos ter esta experiência quando comemos um suhi
"fast food" na praça de alimentação de um shopping center
e compararmos com uma sensação que sentimos quando comemos
o mesmo sushi preparado por um sereno sushiman em um
tradicional restaurante japonês! O sabor, a textura,
a durabilidade são algumas das características do alimento
vitalizado.
Scharpf e Aubert em 1.976 observaram que ácidos orgânicos
não nitrogenados (associados ao sabor) são relativamente
mais abundantes em produtos orgânicos pois são reduzidos
em produtos que receberam fertilizantes amoniacais,
os quais também reduzem sabor em tomates, cenouras e
couve-flor. Quando se compara a durabilidade de produtos
orgânicos e convencionais observa-se que os últimos
apresentam maior índice de perdas (Samaras, Peterson
1.977, 1.978). Consumidores também referem maior durabilidade
do produto orgânico como motivo de preferência em pesquisa
realizada por Cerveira e Castro em 1.999. Hoje sabemos
que as doenças crônicas são as principais causas de
morte e que são decorrentes do estilo de vida. Por mais
que a medicina convencional tenha avançado no controle
das deonças crõnicas "tratando" com hipoglicemiantes
os diabéticos, com analgésicos os que tem dor, não desenvolveu
processos de cura verdadeira pois esta não pode ser
alcançada apenas no plano físico.
Um verdadeiro tratamento precisa promover revisão e
mudança de hábitos, de estilo de vida. Isto só é possível
numa abordagem multiprofissional e interdisciplinar.
A pessoa que está doente está com o sinal de alerta
ligado. A doença se assemelha a luz que acende no painel
de um carro em viagem: o bom senso manda que se pare
e verifique o motivo que provocou o alarme. Nenhum motorista
em sã consciência iria pegar um martelo e um estilete,
apagar a luz quebrando-a e continuar a viagem como se
nada tivesse acontecido. Assim também não é sensato
erradicar uma dor com anaçgésico e continuar a vida
como se nada estivesse acontecendo! Da mesma forma nã
podemos jogar alimentos "guela abaixo" como alguém enche
um tanque de combustível. Alimentação demanda relacionamento,
reconhecimento do que sentimos que precisamos comer,
daquilo que nos faz bem, daquilo que necessitamos.
A medicina tradicional chinesa, assim como a ayurvédica,
confere enorme atenção "a escolha do alimento adequado.
Minha avó escolhia tomates chesirando-os, experimentava
os produtos da feira antes de adquirí-los, deixava que
o olfato e o paladar decidissem se eram vitalizados
ou não. Hoje nós lemos os rótulos das embalagens plásticas,
perdemos o contato com a origem daquilo que comemos!
Não é possível se curar sem se transformar, sem rever
nossoa hábitos, padrões, atitude mental e postura física.
Precisamos administrar pessoalmente nossas necessidades.
Não é possível "terceirizar" nossa saúde e nem nossa
vida. O conceito de Ecologia Médica que temos utilizado
nos últimos anos reconhece a doença de um ser como um
fenômeno ecológicoque expressa um desequilíbrio que
se enraiza para além do doente. As origens podem estar
no ambiente social, no desequilíbrio ambiental, na inadequada
produção dos alimentos.
É fundamental que o homem recupere sua sensibilidade
e re-conheça suas verdadeiras demandas essenciais, aquelas
que o levaram a genuína realização, saúde, bem-estar
e felicidade. Através do olhar ecológico percebemos
que a felicidade e o bem-estar são fenômenos coletivos
que ninguém pode conquistar isoladamente, pois cada
um de nós é apenas uma diminuta peça de uma intrincada
teia. Desta forma podemos compreender que o alimento
orgânico não é apenas mais um produto na gôndola do
supermercado, mas sim uma atitude de vida diante de
nós mesmos ede tudo aquilo que nos cerca, desde nossos
amigos e familiares até a vastidão de Gaia, este complexo
Planeta Terra do qual somos parte integrante.
Bibliografia:
- Revista Agroecologia ano II nº12 dez. 2.001 - Alimentação
e Saúde E-mail: revista@agroecologia.com.br
- Agricultura Ecológica - Ambrosano, Edimilson. 1.999.
Liv. e Ed. Agropecuária E-mail: edipec@plug-in.com.br
- O Renascimento da Natureza - Sheldrake, Rupert. 1.991.
Ed. Cultrix
- Os 5 Elementos na Alimentação Equilibrada - Fahrnow,
Ilse Maria & Fahrnow, Jurgen. Ed. Ágora
- Manejo Ecológico do Solo - Primavesi, Ana. 1.979.
Ed. Nobel
- O Universo Autoconsciente - Goswami, Amit. 2.001.
Ed. Rosa dos Tempos
- Alimentos Orgânicos - Azevedo, Elainede. 2.003. Ed.
Insular E-mail: editora@insular.com.br
*
Fernando A. C. Bignardi
E-mail: fbignardi@ig.com.br
fone: (11) 5078.6816
- Coordenador do Núcleo de Pesquisas Homeopáticas da
UNIFESP
- Vice-Presidente da AAO (Associação de Agricultura
Orgânica)
- Diretor do Centro de Ecologia Médica "Florescer na
Mata"
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