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História
Por que Sir. Albert Howard é considerado o "pai"
da Agricultura Orgânica?
Por Eduardo Ehlers*
A obra do pesquisador inglês Sir. Albert Howard foi
o principal ponto de partida para uma das mais difundidas
vertentes alternativas, a agricultura orgânica. Entre
os anos de 1925 e 1930, Horward dirigiu, em Indore,
Índia, um instituto de pesquisas de plantas, onde realizou
vários estudos sobre compostagem e adubação orgânica.
Mais tarde, publicou obras relevantes como Manufacture
of húmus by Indore process (Manufatura do húmus
pelo processo Indore), em 1935, e em 1940, An agriculture
testament (Um testamento agrícola) uma das mais
relevantes referências bibliográficas para pesquisadores
e praticantes do modelo orgânico. Robert Rodale considera
Howard o "pai da agricultura orgânica".
Em 1905, Horward começou a trabalhar na estação experimental
de Pusa, na Índia, e observou que os camponeses hindus
não utilizavam fertilizantes químicos, mas empregavam
diferentes métodos para reciclar os materiais orgânicos.
Howard percebera, também, que os animais utilizados
para tração não apresentavam doenças, ao contrário dos
animais da estação experimental, onde eram empregados
vários métodos de controle sanitário. Intrigado, Howard
decidiu montar um experimento de trinta hectares, sob
orientação dos camponeses nativos e, em 1919, declarou
que já sabia como cultivar as lavouras sem utilizar
insumos químicos:
"Seu sistema partia basicamente do reconhecimento
de que o fator essencial para a eliminação das doenças
em plantas e animais era a fertilidade do solo. Para
atingir seu objetivo ele criou o chamado processo "Indore"
de compostagem, desenvolvido entre 1924 e 1931, pelo
qual os resíduos da fazenda eram transformados em húmus,
que, aplicado ao solo em época conveniente, restaurava
a fertilidade por um processo biológico natural".[1]
Em suas obras, além de ressaltar a importância da utilização
da matéria orgânica nos processos produtivos, Howard
mostra que o solo não deve ser entendido apenas como
um conjunto de substâncias, tendência proveniente da
química analítica, pois nele ocorre uma série de processos
vivos e dinâmicos essenciais à saúde das plantas. Seguindo
essa mesma linha, Lady E. Balfour fundou a Soil Association,
que ajudou a difundir as idéias de Howard na Inglaterra
e em outros países de língua inglesa. Em 1943, Lady
Balfour publicava The Living Soil (O solo vivo),
reforçando a importância dos processos biológicos no
solo.
A recepção do trabalho de Howard junto a seus colegas
ingleses foi péssima, tendo sido ele inclusive hostilizado
em uma palestra proferida na Universidade de Cambridge,
em 1935, quando regressava do Oriente. Afinal, suas
propostas eram totalmente contrárias à visão "quimista"
que predominava no meio agronômico. A obra de Howard
só foi aceita por um grupo muito reduzido de dissidentes
do padrão predominante, dentre os quais destaca-se o
norte-americano Jerome Irving Rodale, que passou a popularizar
suas idéias nos Estados Unidos.
Em 1940, J. I. Rodale adquiriu uma fazenda no estado
da Pensilvânia, EUA e, motivado pela convicção de que
os alimentos produzidos organicamente são preferíveis
para a saúde humana, passou a praticar os ensinamentos
de Howard. Em 1948, publicava pela sua própria editora
o livro The organic front (O fronte orgânico).
Entusiasmado, Rodale decidiu lançar a revista Organic
gardening and farm - OG&F (Hortas e fazendas orgânicas)
que, ao contrário dos resultados que obtinha no campo,
foi um fracasso nas vendas. Em 1960, passou para o filho,
Robert, a administração da Rodale Press, que,
apesar dos prejuízos, continuou publicando a OG&F.
Entretanto, na década de 60 surgiu a "terceira onda
preservacionista-conservacionista" deste século, movimento
que lançou o atual ambientalismo, a partir da grande
publicidade obtida por manifestações em defesa de reservas
florestais norte-americanas (Dinosaur NationalPark,
o Grand Canyon, Redwords e Cascades). "Tais batalhas
mobilizaram uma nova geração de ativistas e novas questões
entraram nas plataformas das tradicionais entidades
conservacionistas: principalmente o perigo dos pesticidas
para a flora e a fauna". Essa "onda" também atingiu
grandes contingentes de consumidores, que passaram a
preocupar-se com a qualidade nutritiva dos alimentos,
para a qual J. I. Rodale atentava há duas décadas.
Com isso, as vendas da Organic Gardening and Farm
começaram a subir e, em 1971, foram vendidos 700.000
exemplares. Parte dos ganhos com essa publicação passaram
a ser investidos em pesquisas e experimentos na fazenda
orgânica dos Rodale que, em pouco tempo, tornou-se um
dos principais centros de referência e de divulgação
dessa vertente alternativa.
No final da década de 70, três estados norte-americanos
- Oregan, Maine e Califórnia - definiram claramente
os critérios para a agricultura orgânica, com o intuito
de regulamentar a rotulagem dos alimentos que tivessem
essa procedência. De acordo com a Lei de Alimentos Orgânicos
da Califórnia (The Califórnia Organic Foods Act),
de 1979, esses alimentos devem atender os seguintes
requisitos:
- "serem produzidos, colhidos, distribuídos, armazenadas,
processados e embalados sem aplicação de fertilizantes,
pesticidas ou reguladores de crescimento sinteticamente
compostos;
- no caso de culturas perenes, nenhum fertilizante,
pesticida ou regulador de crescimento sinteticamente
composto deverá ser aplicado na área onde o produto
for cultivado num período de doze meses antes do aparecimento
dos botões florais e durante todo o seu período de crescimento
e colheita;
- no caso de culturas anuais e bianuais, nenhum fertilizante,
pesticida ou regulador de crescimento sinteticamente
composto deverá ser aplicado na área onde o produto
for cultivado num período de doze meses antes da semeadura
ou transplante e durante todo o período de seu crescimento
e colheita".[2]
Nos anos 80, a noção de agricultura orgânica já apresentava
um campo conceitual e operacional mais preciso e, em
1984, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
(USDA) reconheceu sua importância formulando a seguinte
definição:
"A agricultura orgânica é um sistema de produção
que evita ou exclui amplamente o uso de fertilizantes,
pesticidas,[3] reguladores de crescimento e aditivos
para a alimentação animal compostos sinteticamente.
Tanto quanto possível, os sistemas de agricultura orgânica
baseiam-se na rotação de culturas, estercos animais,
leguminosos, adubação verde, lixo orgânico vindo de
fora da fazenda , cultivo mecânico, minerais naturais
e aspectos de controle biológico de pragas para manter
a estrutura e produtividade do solo, fornecer nutrientes
para as plantas e controlar insetos, ervas daninhas
e outras pregas".[4]
* Eduardo Ehlers é um dos associados e produtor
certificado AAO.
Fonte: EHLERS Eduardo, Agricultura Sustentável,
Ed. Agropecuária, 1999, p. 52 a 56
Referências bibliográficas
[1] BONILLA, José A. Fundamentos da agricultura ecológica.
São Paulo: Nobel, 1992. p. 16.
[2] USDA (United States Department of Agriculture).
Relatório e recomendações sobre a agricultura orgânica,
Brasília: CNPq/Coord. Editorial, 1984, p.24.
[3] A palavra "pesticida" é um anglicismo. Pest no idioma
inglês significa praga; portanto, a tradução correta
de pesticide para o português é "preguicida", produto
que elimina as pragas da lavoura. No entanto, Adilson
Paschoal atenta para o fato de que os praguicidas eliminam,
além das pragas, outros seres vivos que habitam os agroecossistemas
e, por este motivo, defende a utilização do termo "agrotóxico".
PASCHOAL, 1979, op. cit.
[4] USDA, 1984, op. cit. P.10.
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